Novos trens não aliviam sufoco no metrô do Rio

RIO – Quando as portas se abrem, homens, mulheres, idosos e crianças correm, aos  trancos, quase uns por cima dos outros, para tentar conseguir um bom lugar. Em  pé, claro, porque não há mais onde se sentar quando o metrô chega à Pavuna,  estação terminal da Linha 2, onde, teoricamente, os passageiros deveriam  embarcar num trem vazio, com toda calma. Mas o sufoco diário que é andar de  metrô no horário do rush obriga as pessoas a criarem estratégias para o  transporte, que opera no limite, levando diariamente uma média de 650 mil  passageiros, como mostra O GLOBO na segunda reportagem da série “Imobilidade  urbana”. Ozeas Leal, de 31 anos, embarca todos os dias, por volta das 6h, em  Vicente de Carvalho, e anda seis estações para trás, até a Pavuna, para  conseguir lugar no trem:

— Acordo uma hora antes, levo mais 40 minutos de viagem, mas chego ao  trabalho.

Ele não é o único. Às 6h, a estação de Coelho Neto já está lotada, mas não na  plataforma de embarque para o Centro, como seria natural. Quando o trem sentido  Pavuna chega, todos embarcam e tratam logo de pegar um lugar. O cenário é o  mesmo nas estações Colégio, Acari, Fazenda Botafogo e Engenheiro Rubens Paiva.  Quem não consegue mais assento procura se posicionar em algum lugar, pois sabe  que, ao chegar à Pavuna, não conseguirá mais se mover.

— É a volta dos que não foram — brinca Oscar Silva, um senhor que, ao  embarcar na Pavuna, já encontra o trem sem assentos disponíveis.

Defeitos constantes em elevadores

A estudante de odontologia Karine Caldas Pinto, de 23 anos, explica a curiosa  estratégia.

— Não é só pelo conforto de ir sentada. Se não fizer assim, nem consigo  entrar no vagão de tão lotado que ele chega — diz a jovem, que embarca em Coelho  Neto, segue até a Pavuna, três estações depois, para então voltar em direção à  Cidade Nova, onde finalmente desembarca.

O “jeitinho” não serve para quem embarca no ponto final, na Pavuna, mas esses  passageiros já desenvolveram suas próprias táticas.

— Quando embarco na Pavuna, já fico perto da porta, para saltar em Acari. De  lá, volto para a Pavuna num trem mais vazio. Também não consigo sentar, mas,  pelo menos, fico perto de algum ferro para me segurar, ou encostada na parede,  que é mais seguro — conta Valéria Lima, moradora da Pavuna que trabalha no  Centro.

O sufoco dentro dos vagões não é o único problema enfrentado pelos  passageiros do metrô. Os usuários também reclamam das frequentes paralisações no  sistema, o que aumenta o intervalo entre os trens e lota as plataformas de  embarque. No dia 28 de janeiro, centenas de passageiros ficaram presos, por mais  de uma hora, dentro dos vagões, devido a uma pane. Depois de liberados, alguns  tiveram de caminhar sobre os trilhos, pelos túneis escuros, até a plataforma  mais próxima. Oito estações da Zona Sul ficaram fechadas em pleno rush da  manhã.

Outros pontos nevrálgicos são o ar-condicionado dos trens — especialmente dos  antigos, já que os novos têm um sistema mais potente — , e equipamentos como  escadas rolantes e elevadores, que dão defeito constantemente, dificultando o  acesso de idosos e pessoas com deficiência. Marina Vieira Alves, de 40 anos, mãe  de Vitória, de 14, cadeirante, não poupa críticas:

— Os elevadores vivem quebrados. Há pouco tempo, o da Estação Flamengo não  estava funcionando. Tive que subir com a cadeira pela escada rolante, sem a  ajuda de funcionários. Não fossem os passageiros, a cadeira teria tombado.

Na última quarta-feira, Marina só conseguiu entrar com a filha num trem  superlotado em direção ao Centro, em pleno horário do rush, graças à boa vontade  dos passageiros:

— É sempre um sufoco para entrar. E nunca tem ninguém do metrô para  ajudar.

Inaugurado em 5 de março de 1979, o metrô do Rio não conseguiu nunca ir muito  longe. Depois de 34 anos, conta com apenas duas linhas, 40,2 quilômetros de  trilhos e 35 estações, das quais 34 estão em funcionamento, já que General  Osório, em Ipanema, está fechada para as obras da Linha 4, que ligará a Zona Sul  à Barra.

A frota atual é de 42 trens, sendo dois reservas. Desse total, 15 são modelos  novos, comprados na China; outros quatro estão em fase de teste.

— Até o ano passado, o sistema operava com uma grade de 32 trens, de seis e  cinco carros. Hoje, devido à interdição da Estação General Osório, operamos com  42 trens de seis carros, um aumento de 30% de oferta, e não tivemos aumento de  passageiros no ano passado. A média de usuários é de 650 mil em dias úteis, a  mesma de agosto do ano passado — afirma Joubert Flores, diretor de engenharia da  Metrô Rio, concessionária que, em abril de 1998, assumiu o serviço, até então  administrado pelo estado.

“É cheio, mas está na média”, diz executivo

Flores, que afirma conhecer a realidade do sistema metroviário na hora do  rush, garante que ainda cabem mais passageiros nos trens:

— A capacidade do trem é de seis passageiros por metro quadrado, e operamos  em torno de cinco. É cheio, mas está dentro da média, que é a mesma utilizada em  outros metrôs do mundo. Não é para ser sufoco, mas não é para ser vazio.

No vaivém diário, o metrô está sempre correndo atrás do prejuízo. Em 21 de  dezembro de 2009, quase 40 anos depois de iniciadas as obras do trecho inicial  entre Tijuca e Ipanema, os trens finalmente chegaram à Praça General Osório,  estação que está sendo quebrada agora para permitir a ampliação — não prevista — do sistema. Na época, o metrô transportava 550 mil pessoas por dia, no limite de  sua capacidade.

Por mais de três décadas, o metrô circulou com o mesmo número de trens. Até  que veio a promessa de compra de novos vagões. O primeiro desembarcou no Porto  do Rio em abril de 2012, com um atraso de um ano e meio. Os outros foram  chegando aos poucos. De acordo com a concessionária, até o dia 28 deste mês  todos os 19 trens — que custaram à empresa R$ 320 milhões — estarão em condições  de operar. A frota só não circulará com a capacidade total devido às obras na  Praça General Osório.

— O dia em que todos os trens estiverem na grade, conseguiremos ter um  intervalo próximo de quatro minutos, reduzindo a lotação. O intervalo hoje já é  bem menor. No ano passado, era de seis minutos e, atualmente, está em 4,35  minutos nos horários de pico — afirma o diretor da concessionária.

 Fonte: O Globo, 18/03/2013

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