Em defesa da Baroneza, por Vicente Vuolo

O Brasil não tem o direito de destruir a sua história. A ferrovia faz parte do nosso passado. É, também, o transporte do presente e do futuro no mundo. Menos no Brasil.

Desenvolver nossa malha ferroviária é um imperativo. A ferrovia não pode continuar sendo relegada a um segundo plano. Como o país permitiu que ao longo dos anos, retirassem milhares de quilômetros desses trilhos?

É preciso valorizar a história do Brasil. Saber a importância social e econômica que essas ferrovias desempenharam por décadas para consolidar cidades e para a independência do país. Patriotismo e respeito ao nosso passado, são instrumentos eficazes para que governantes não tomem decisões intempestivas.

Preservar, reativar, modernizar malhas ferroviárias deve fazer parte do planejamento da logística de nosso país. Várias ferrovias, a exemplo da Estrada de Ferro Petrópolis num trecho de 14,5 km entre Mauá e Fragoso devem ser revitalizadas com urgência. No caso desse símbolo histórico, foi nesse terreno montanhoso, desafiador, íngreme cercado de paisagens ímpares, povoado por animais e plantas de rara beleza que a primeira locomotiva a vapor no Brasil, a “Baroneza” circulou imponente, com seus cobres polidos, duas chaminés, um farol e dois estribos.

A paisagem estonteante e a locomotiva charmosa inspiraram o Imperador Dom Pedro II, no ato de inauguração, a batizar de “Baroneza” a locomotiva, em homenagem à esposa do Barão de Mauá. O passeio romântico foi tão emocionante que Dom Pedro II parou no alto da Serra sobre o viaduto de Três Arcos para lanchar com os comissários e apreciar a cidade maravilhosa.

Vamos imaginar que estamos em maio de 1854. E viajar no tempo, saindo da estação carioca em direção a Petrópolis e relembrar um daqueles filmes românticos da época, em que elegantes cavalheiros ao lado de belas damas, compartilham o vagão-restaurante. De saborear e absorver, no fluxo incessante de imagens que passam pela janela da Baía da Guanabara, aquelas que valem a pena gravar na memória. Imagens como a Serra do Mar até chegar ao outro paraíso serrano.

De imaginar um comboio de vagões decorado no estilo neoclássico, com aconchegantes cabines-dormitório, bar completo, restaurante, um vagão-living para sessões de vídeo. Com seria magistral se recuperássemos esse tempo? Andar a 37 km por hora, que é o dobro da velocidade média dos veículos que hoje trafegam nas metrópoles brasileiras. É incrível!

De acordo com a Associação Fluminense de Preservação Ferroviária, “a extinta Estrada de Ferro Príncipe do Grão do Pará (1883-1964), que ligava Petrópolis ao Rio de Janeiro, registrou somente um único acidente nos 81 anos de operação, com três vítimas fatais no trecho de 6 km no plano inclinado de 18% da Serra Estrela, com tração por locomotivas cremalheiras a vapor, trecho esse que teimosamente insistimos em reativar, apesar do desinteresse das autoridades”.

Mas não é só saudosismo. Assim como a citada ferrovia, várias outras, poderiam se transformar em fontes importantes de renda e mobilizadoras de turismo e de lazer. Há um grande número de estações ferroviárias que são, em verdade, palácios e imóveis de primoroso gosto arquitetônico. Contudo, várias estão em ruínas.

Não é inteligente destruir ou deixar destruir fontes de renda de uma indústria das quais mais crescem no mundo, o turismo. A elite cultural brasileira viaja para a Europa e Ásia e fica maravilhada com estradas de ferro que percorrem montanhas e vales lindíssimos. Mas, essas mesmas elites viram as costas para igual tesouro que temos no Brasil. Não tem sentido isso!

Mesmo vivendo uma crise conjuntural, não podemos deixar de arregaçar as mangas e mobilizar nossa inteligência para realizarmos um plano de desenvolvimento de nossa malha ferroviária para os próximos 50 anos. Um plano ferroviário que contemple, ao mesmo tempo, o transporte de carga para longas distâncias, de pessoas nas regiões metropolitanas e em microrregiões, o turismo histórico e lazer, isso sem falar nas linhas de alta velocidade e os bondes urbanos. Ou seja, deve contemplar o desenvolvimento de nossa indústria ferroviária e de componentes.

Com isso, vamos descobrir que uma agenda de investimentos nas ferrovias, além de reduzir o “custo Brasil”, irá criar empregos e gerar potencial industrial que alavancará vários outros setores econômicos.

VICENTE VUOLO É ECONOMISTA, CIENTISTA POLÍTICO E ANALISTA LEGISLATIVO DO SENADO FEDERAL.
E-MAIL: vicente.vuolo10@gmail.com

Fonte: Vicente Vuolo, 08/05/2015

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