Incompleto após um ano, VLT do Rio vira transporte do horário do almoço

Todos os dias, por volta de 13h, o gerente comercial Renato Nazareno, 50, faz a mesma viagem. Sai do escritório onde trabalha, perto da praça Mauá, no centro do Rio, e embarca no VLT (Veículo Leve Sobre Trilhos) no sentido Cinelândia. Desce na estação Sete de Setembro e se encontra com a filha, Renata, que estuda ali perto. Almoçam juntos e, depois, ele pega o bonde elétrico de volta para o trabalho.

Inaugurado há um ano e com apenas uma linha funcionando plenamente, o VLT “pegou” como transporte de hora de almoço. Enquanto metrô, trem e ônibus ficam lotados na hora do rush –entre as 6h e as 9h e de 17h às 20h– o VLT fica cheio, mesmo, no início da tarde.

O número de pessoas que usam o transporte entre 11h e 15h representa quase 45% da média diária, diz o consórcio que gere o VLT. “O pico do pico é entre 13h e 15h”, diz Paulo Ferreira, gerente de operações.

Como circula na parte comercial e empresarial do centro, também virou meio de locomoção para resolver assuntos de trabalho. “Tenho muitas reuniões pelo centro, então pego VLT para chegar nelas. Antes, pegava táxi ou ia a pé, no calor”, diz Nazareno.

Na mesma plataforma, Caroline Miller, 22, tinha na mão um documento que precisava entregar em uma reunião a algumas quadras dali. Para economizar tempo, foi de VLT.

Já as colegas Danielle Souza, 26, Vitória Vidal, 22, e Nathalia Maio, 27, aproveitavam o intervalo de almoço para pegar o bonde elétrico e conhecer o Museu do Amanhã.

Uma pesquisa encomendada pelo consórcio ao Ibope mostra que a maioria dos usuários é de classe B (com renda de R$ 4.427 a R$ 8.696), funcionário de empresa privada, com nível superior. No total, 70% usa, o transporte para trabalho, e 38% para lazer.

O VLT foi idealizado na gestão do prefeito Eduardo Paes (PMDB) para contribuir para a revitalização do centro da cidade, especialmente da região portuária, e reduzir o espaço para carros.

Se a proposta era de um transporte de massa, e não só turístico ou de uso esporádico, é cedo para dizer se o VLT vingou. Com a rede incompleta, o número de usuários está longe da média prevista pela prefeitura –12% dela. A linha 1 leva 30 mil pessoas por dia útil. A previsão de demanda média é de 250 mil com todo o sistema em operação -três linhas, no total.

Ferreira acha que o perfil de uso pode mudar no segundo semestre, quando a linha 2, que começou a operar comercialmente no dia 24, chegar à Central do Brasil, estação de trens metropolitanos com ligação com o metrô. Ainda em obras, hoje ela vai do terminal das barcas que ligam o Rio a Niterói à Saara -o equivalente à paulistana rua 25 de Março no Rio.

“Quando chegar à Central, é possível que a gente veja o horário de uso mudar para a hora do rush”, diz.

Um obstáculo é o bilhete, que custa R$ 3,80 e não tem integração tarifária com outros modais, só com ônibus municipais. Quem pegar metrô e VLT todos os dias para ir e voltar do trabalho gastará R$ 15,80 por dia em transporte. No fim do mês, a conta chegará a ao menos R$ 316, 34% de um salário mínimo.

Outro problema que usuários do VLT enfrentam está ligado à violência –o VLT passa em frente à favela da Providência, que tem sido cenário de confrontos frequentes entre criminosos e policiais.

Desde que começou a funcionar, há um ano, o serviço já foi interrompido 12 vezes devido a tiroteios no entorno. Foi o que aconteceu na última segunda (5), no primeiro dia de funcionamento de duas estações, as da Praça da Harmonia e Providência.

Fonte: Folha de São Paulo, 07/06/2017

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