Investimento chinês: Equação não fechará, por Vicente Abate

Que o Brasil precisa prementemente de infraestrutura, todos nós sabemos. Esta necessidade vem de muito tempo, pois o déficit de investimentos no País é crônico.

Portanto, sinalizações de investimentos como os anunciados pela China na construção de ferrovias no Brasil, serão sempre bem-vindas.

É preocupante, entretanto, o teor do artigo “A visita de Li Keqiang ao Brasil“, de autoria do embaixador Sergio Amaral, publicado à página A2 d’O Estado de São Paulo de 15/5 pp.

Diz nosso embaixador que “A retração dos financiamentos, por sua vez, poderá induzir a flexibilização das regras de conteúdo nacional para a aquisição de equipamentos. Amplia-se, assim, o espaço para a participação de investidores estrangeiros nas novas concessões para projetos de infraestrutura. Nesse contexto, o investidor chinês encontra-se em posição privilegiada, pois é competitivo na tecnologia, nos equipamentos e no financiamento”.

Mais adiante, ele arremata : “Não se trata apenas da rede tentacular de rodovias, ferrovias e portos, em si, mas da capacidade de atração de novos investimentos e da abertura de mercado para exportações chinesas”.

Se há uma contrapartida a estes investimentos chineses, ou de qualquer outra origem, esta será a competitividade logística a ser alcançada na esteira de uma infraestrutura melhor e não o sacrifício da já maltratada indústria brasileira, se aplicadas a “flexibilização das regras de conteúdo nacional” e a “abertura de mercado para exportações chinesas”.

Já assistimos a uma situação semelhante, há pouquíssimo tempo, na Argentina. Em troca de financiamento, a indústria chinesa está inundando o mercado argentino com centenas de trens de passageiros, vagões de carga e locomotivas, além de materiais para via permanente, enterrando o pouco que restava da indústria local e atingindo também o Brasil, potencial fornecedor de componentes e equipamentos para o setor ferroviário argentino.

Que a Argentina não tem compromissos com o Mercosul, já sabemos. Espera-se, porém, que o Brasil tenha compromissos com o Brasil, fortalecendo a sua indústria, que gera emprego de qualidade para o trabalhador brasileiro, e não permitindo a geração de emprego no outro lado do mundo.

Vicente Abate
Presidente da ABIFER – Associação Brasileira da Indústria Ferroviária

 

Fonte: ABIFER,  18/05/2015

 

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