Valor Econômico – Após o “boom” de leilões rodoviários, o governo federal deverá voltar sua atenção principalmente ao setor ferroviário em 2026, com o objetivo de construir uma carteira de projetos de trilhos e destravar as licitações do segmento, segundo George Santoro, secretário-executivo do Ministério de Transportes.
“O setor de rodovias entrou em uma linha de produção. A modelagem já está ajustada, os projetos contratados, tudo está andando. Então, hoje dedico muito mais tempo para ferrovias do que para rodovias”, disse ele.
Em janeiro, o governo planeja soltar um edital de chamamento público para investidores interessados em recuperar trechos ferroviários entre Arcos (MG) e Barra Mansa (RJ), o chamado Corredor Minas-Rio. A ideia é que grupos se candidatem a assumir a ferrovia em regime de autorização (em que os ativos são totalmente privados). A previsão é que o leilão seja feito em abril.
Trata-se de um primeiro teste desse modelo, segundo Santoro. “Em fevereiro, fica pronto um estudo que encomendamos ao BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento] para analisar toda a malha do país. Esse estudo vai dizer, no detalhe, o custo para recuperar cada trecho da malha ferroviária não utilizada. E, a partir desse trabalho, nossa ideia é tentar aprovar no TCU [Tribunal de Contas da União] uma solução com chamamentos públicos [para outras autorizações].”
Outra iniciativa avançada é o novo Anel Ferroviário Sudeste, a ferrovia EF-118, entre Espírito Santo e Rio de Janeiro. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) aprovou nos últimos dias de dezembro o projeto, para que seja enviado ao Tribunal de Contas da União (TCU). O governo prevê soltar o edital em março, para fazer o leilão em junho.
O empreendimento deverá receber um aporte público em torno de R$ 4,5 bilhões, com recursos vindos das renegociações contratuais do governo com a MRS, a Rumo e dos pagamentos já antecipados do acordo com a Vale. O valor já está garantido, em contas vinculadas, e será destinado ao projeto uma vez que este for licitado, segundo ele.
Santoro afirma que as rodadas de conversa com o mercado têm atraído diversos grupos, incluindo operadores ferroviários locais, grupos chineses, gestoras de investimentos com atuação em infraestrutura, entre outros.
Outra licitação que o ministério planeja fazer neste ano é a da Malha Oeste, que poderá prever “sublotes” com trechos reduzidos, conforme antecipou o Valor.
Outros dois corredores ambiciosos na carteira do governo federal são a Ferrogrão e o Corredor Leste-Oeste, que incluiria a Fico (Ferrovia de Integração Centro-Oeste) entre Água Boa (MT) e Mara Rosa (GO) e a Fiol (Ferrovia de Integração Oeste-Leste) de Mara Rosa a Caetité (BA).
No caso da Ferrogrão, os principais desafios são superar as questões ambientais e viabilizar a atração de investidores com apetite para aportar bilhões na construção do empreendimento.
Já no corredor da Fico-Fiol, o governo também terá que destravar o primeiro trecho da Fiol, entre Caetité e Ilhéus (BA), e a construção do porto na costa baiana. Esse pedaço da ferrovia foi licitado à Bamin no governo passado, mas até hoje não saiu do papel. Hoje, a empresa negocia a venda do empreendimento. A avaliação no setor é que sem resolver essa parte do corredor, o leilão não sairia.
Na visão do mercado, há um esforço grande do governo para viabilizar os projetos, então existe expectativa de que ao menos uma licitação saia do papel. Porém, a atração de investidores a esse segmento é desafiadora.
“Os projetos são mais ambiciosos [do que as rodovias], são mais complexos em sua estrutura, voltadas para exportação, precisa ligar porto a onde existe carga. Ainda é preciso ver mais materialidade nos projetos e entender como vão ser solucionados os riscos”, afirma Rogério Yamashita, responsável pela área de infraestrutura em Project Finance do Itaú BBA.
Fonte: Valor Econômico, 14/01/2026
