Brasileiro ainda viaja menos de trem e metrô que antes da pandemia

Valor Econômico – O crescimento do número de passageiros transportados por metrôs e trens urbanos passou a refletir um novo patamar de demanda, mais condicionado à expansão da infraestrutura e a mudanças de hábitos da população após a pandemia da covid-19. Em 2025, o segmento movimentou 2,59 bilhões de passageiros, com alta de 0,8% em relação ao ano anterior, segundo balanço da Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANPTrilhos), ao qual o Valor teve acesso.

Apesar do resultado positivo, o avanço foi inferior ao observado em 2024, quando o crescimento havia sido de 3,5%. Dados históricos do setor mostram que o volume de passageiros ainda permanece abaixo do pico registrado em 2019, antes da pandemia, quando foram transportados 3,22 bilhões de passageiros.

Entre 2021 e 2024, houve um processo de recuperação mais intenso. Já no ano passado, a demanda continuou a crescer, porém em ritmo menor, reforçando a desaceleração na recomposição.

O comportamento é compatível com a hipótese de estabilização da demanda em um novo patamar. Também pesam as mudanças de hábitos provocadas pela pandemia, como o aumento do home office e do ensino a distância, além da migração para canais virtuais de compras e da maior preferência pelo transporte individual.

“Vem havendo um aumento gradual ano após ano, mas o levantamento mostra que chegamos ao limite da infraestrutura existente e que já temos um novo normal”, afirmou a diretora-presidente da ANPTrilhos, Ana Patrizia Lira. “Se não houver investimento em novos quilômetros, não vamos conseguir avançar muito além do patamar atual”, acrescentou.

A extensão operacional da rede metroferroviária totalizou 1.144,7 km em 2025, frente a 1.137,5 km no ano anterior. Contudo, a executiva avalia que o país está em um “bom caminho”. Segundo ela, há cerca de R$ 50 bilhões já contratados em investimentos para os próximos cinco anos, o que sustenta a expectativa de um salto na extensão da rede e, consequentemente, no número de passageiros.

O balanço aponta que o país contava, ao fim de 2025, com 20 projetos em execução no setor, que somam 138,7 quilômetros de extensão e 123 pontos de embarque e desembarque, entre estações e paradas, com previsão de entrega entre 2026 e 2028.

Entre os projetos em andamento, há iniciativas de expansão de linhas existentes, construção de novas estações e implantação de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), com destaque para empreendimentos em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Fortaleza. O levantamento também aponta 14 projetos em estruturação.

Outra frente considerada essencial para o avanço do setor, segundo a diretora-presidente, é a definição de novas políticas públicas. Ela destaca três pontos principais: a racionalização da rede, com maior integração entre os modais, ainda limitada no país, onde há competição entre metrôs e ônibus, a ampliação da integração tarifária e a unificação dos meios de pagamento. “Hoje, não é amigável acessar o sistema em todas as localidades”, afirmou.

A rede de transporte urbano de passageiro sobre trilhos é composta, atualmente, por 49 linhas, incluindo metrô, trem urbano, VLT e monotrilho, operadas por 17 empresas, distribuídas em 12 unidades da federação, abrangendo 73 municípios. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população residente nessas localidades totaliza 49,8 milhões de habitantes, o que representa 24,7% da população brasileira.

Em 2025, a média de passageiros transportados em dias úteis foi de 8,7 milhões, com a demanda concentrada em poucos Estados. São Paulo respondeu por 77% dos passageiros transportados no ano, seguido pelo Rio (12,7%) e Bahia (4,5%). Juntas, as três unidades federativas concentraram 94,3% da movimentação nacional.

Fonte: O Valor, 15/04/2026

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