Evento reúne governo, operadoras e campanhas presidenciais para debater futuro do transporte sobre trilhos no Brasil
O Conexão ANPTrilhos 2026 reuniu, nesta quarta-feira, no Brasília Palace Hotel, representantes do governo federal, de estados, de operadoras e de campanhas presidenciais para debater o transporte de passageiros sobre trilhos no Brasil. Ao longo do dia, quatro painéis e uma apresentação internacional abordaram planejamento, financiamento, segurança jurídica e as prioridades dos planos de governo para o setor. Mais de 850 pessoas acompanharam o evento presencialmente ou online.
A abertura contou com a participação de Ana Patrizia Lira, diretora-presidente da ANPTrilhos, que anunciou o lançamento da campanha No Trilho Certo, proposta da entidade para o ciclo eleitoral em curso. Citando dados da CNT sobre a migração de passageiros do transporte coletivo para o individual entre 2017 e 2024, ela declarou: “Nosso objetivo aqui nesse dia é construir debate, é construir conhecimento.” Em seguida, acrescentou: “Já temos o diagnóstico, nós temos o caminho a seguir”, ao apresentar os três eixos do programa: tarifa mais justa com financiamento permanente, integração metropolitana e ampliação da rede sobre trilhos, com investimento estimado em R$ 20 bilhões por ano até 2054.
Julio Castiglioni, presidente do Conselho de Administração da ANPTrilhos e diretor-presidente do Metrô de São Paulo, também discursou na abertura. “A gente está num momento oportuno, que é o momento eleitoral”, disse Castiglioni, ao destacar que os painéis do dia seguiriam uma linha comum entre planejamento, financiamento, segurança jurídica e integração entre modais. Também participaram da abertura o ministro das Cidades, Vladimir Lima; o diretor-presidente da Infra S.A., Jorge Bastos; e o diretor de Relações Institucionais da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Valter de Souza.
Diagnóstico nacional e carteira de projetos
O primeiro painel apresentou os resultados do Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), elaborado pelo BNDES em parceria com o Ministério das Cidades, com moderação de Castiglioni. Marcos Daniel dos Santos, secretário nacional de Mobilidade Urbana, explicou que o estudo nasceu de uma inquietação concreta da equipe técnica, que recebia propostas de dimensões e valores muito distintos entre si e sem parâmetros que permitissem compará-las. “A ausência de parâmetros claros gerava insegurança na tomada de decisões e dificultava a continuidade de projetos de longo prazo”, afirmou.
O levantamento avançou sobre 21 regiões metropolitanas, como detalhou Cleverson Aroeira da Silva, analista sênior do BNDES. O resultado foi uma carteira de 187 projetos, com investimentos estimados entre R$ 300 bilhões e R$ 430 bilhões até 2054, dos quais cerca de R$ 175 bilhões concentrados em São Paulo, conforme apresentou Luciene Machado, superintendente do BNDES.
Para Ana Claudia Nascimento, diretora de Planejamento da CTB, esse conjunto de propostas tem potencial para mais do que dobrar a rede estruturante atual. Joubert Flores, do Conselho Administrativo da ANPTrilhos, avaliou que o caráter técnico e coletivo da construção do estudo permite ao setor avançar. Pedro Henrique de Morais Marques, chefe do Departamento de Mobilidade Urbana do BNDES, pontuou: “A grande meta é organizar essa rede. Não adianta mais criar projetos isolados sem ter uma centralidade, com fluxo previsível de recursos.” Santos complementou defendendo o fortalecimento das equipes técnicas dos entes federados. Participaram ainda do painel Francisco Pierrini, CEO da Linha Uni, e Michael Sotelo, diretor-presidente da CPTM.
Experiência de Lisboa e modelos de financiamento
Na sequência, Carlos Humberto de Carvalho, presidente da Transportes Metropolitanos de Lisboa, apresentou, em conversa mediada por Guilherme Ramalho, CEO do MetrôRio, como a área metropolitana da capital portuguesa — composta por 18 municípios e 3,3 milhões de habitantes — saiu de um sistema fragmentado, com mais de 7 mil tipos de bilhete, para uma tarifação única, simples e integrada em todo o território.
O segundo painel discutiu modelos de financiamento e sustentabilidade econômica para o transporte sobre trilhos, com a participação de Sergio Avelleda, sócio-fundador da Urucuia, e Henrique Tosello Lauer, especialista em Tecnologia e Otimização Operacional da Radix. Marcus Cavalcanti, secretário especial do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) da Casa Civil, defendeu a atualização da lei de concessões e PPPs e afirmou: “O Brasil não discutiu ainda o que deve manter de taxa de investimento de recursos públicos. Essa é uma discussão maior.”
Leonardo Ribeiro, secretário nacional de Transporte Ferroviário do Ministério dos Transportes, apresentou os três grupos de receita que orientam a política ferroviária federal — recursos públicos, privados e alternativos — e declarou: “Esses são os três grupos de fontes de financiamento que estamos trabalhando para cobrir o gap de viabilidade dos projetos e trazer maior financiabilidade para todos os projetos do setor.”
Segurança jurídica e previsibilidade regulatória
O terceiro painel, moderado por Fernanda Rezende, diretora executiva da CNT, tratou da segurança jurídica e regulatória no setor. Patricia Pessoa, sócia do Pessoa Valente Advogados, afirmou: “A segurança jurídica está muito mais na estabilidade da norma, na confiança que aquela regra, que está prevista em uma lei, em um contrato, traz.” Juliana Criscuolo, diretora jurídica da Motiva, também participou do debate. Pedro Bruno B. de Souza, secretário de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias do Estado de Minas Gerais, pontuou: “Segurança jurídica passa por previsibilidade, que passa por planejamento. Infraestrutura deve se pensar a longo prazo.”
Campanhas presidenciais divergem sobre financiamento
Encerrando a programação, o painel mediado por Fábio Zambeli, diretor de Public Affairs do Grupo In Press, reuniu representantes de campanhas presidenciais para discutir prioridades e divergências sobre como financiar a mobilidade sobre trilhos. Adriano da Rocha Lima, coordenador-geral da campanha do candidato Ronaldo Caiado, cobrou uma mudança na forma como o país trata o tema: “Quando a gente fala de transporte público como um serviço essencial, a gente tem que observar como o Brasil vem tratando isso nos últimos anos, e é decepcionante.”
Para Daniella Marques, representante da campanha do candidato Flávio Bolsonaro, parte do problema está no custo de capital que encarece qualquer investimento em infraestrutura no país, incluindo trens. Segundo ela, é o chamado Custo Brasil que explica “a média que se custa a mais para botar um trem no Brasil em relação a um trem na OCDE, em Cingapura, na Alemanha, nos EUA ou na China.”
Giancarlo Gama, representante da campanha do candidato Luiz Inácio Lula da Silva, defendeu financiar o setor cobrando mais de quem tem mais e menos de quem tem menos. Gama também abordou a proposta de tarifa zero, hoje fora do plano de governo do petista, mas que permanece no radar da campanha para um eventual quarto mandato: “Com certeza o governo do presidente Lula tem olhado para isso com muito carinho”, afirmou.
A Revista Ferroviária Ferroviária esteve presente no evento e acompanhou de perto todos os debates.
O Conexão ANPTrilhos 2026 teve o patrocínio de Sistema Transporte, CRRC Changchun do Brasil, Motiva, Radix, CRRC Brasil Equipamentos Ferroviários, Trilha Participações, Alstom, Biostation – GTI, AGIS, Comexport, Hitachi, Plasser do Brasil, Vessel Engenharia e Marcopolo Rail.
Revista Ferroviária, 28/08/2026
