Valor Econômico – A Confederação Nacional do Transporte (CNT) estima impacto anual direto de quase R$ 12 bilhões para o setor, por meio de aumento de custos em todos os modais, caso o Congresso aprove a proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala de trabalho 6×1. Em entrevista ao Valor, o presidente da CNT, Vander Costa, alertou para outros impactos da medida sobre o setor, como o agravamento da escassez de mão de obra, em um momento em que já faltam profissionais para atender à demanda, e o estímulo à informalidade.
A proposta também pode afetar o transporte urbano de passageiros, para além do aumento dos custos, com reflexos na prestação dos serviços à população. Segundo Costa, empresas do segmento estão mapeando os possíveis efeitos da mudança e avaliar medidas que poderão ser adotadas. Ele pleiteia que o Senado promova um debate amplo sobre o tema.
Como caminho, a CNT defende que as escalas de trabalho sejam definidas por negociações coletivas. “Não entendemos que tem que engessar a jornada em uma emenda constitucional”, diz. Costa ainda ressalta que o custo da medida seria arcado por todos os brasileiros, no custo da passagem e no aumento do custo de carga.
Em paralelo, a CNT acompanha outras frentes no Congresso, como a tramitação da Medida Provisória (MP) do Frete, que endurece as regras e as punições para o descumprimento do piso mínimo do frete. O texto, que perde validade na próxima quinta-feira (16), foi aprovado pela Câmara dos Deputados com alterações que, na avaliação da entidade, são de difícil aplicação, como o piso salarial para motoristas de longa distância.
Questionado sobre o prazo para a votação da MP no Senado e o risco de uma mobilização dos caminhoneiros, Costa avaliou que a possibilidade é remota. “Só tem medo de greve quem não está no setor”, afirmou.
Confira os principais trechos:
Escala 6×1
Estimamos impacto anual de quase R$ 12 bilhões, mas o que mais nos preocupa não é o impacto financeiro, pois isso vai passar para preço, vai gerar inflação, mas é a falta de mão de obra. Temos hoje 2,5 milhões de trabalhadores no transporte e já está faltando para diversos setores.
Estamos realizando simulações para saber o que pode ser feito, apesar de ainda estarmos trabalhando no Senado para o que o debate seja feito de forma mais clara. Esperamos que seja decidido o que for melhor para a sociedade, e não para um grupo.
Transporte urbano
O menor impacto que pode ter é o aumento de custos. Ao precisar de mais motorista ou ter que pagar hora extra, o custo da prefeitura será maior e vai se investir no transporte público aquilo que poderia estar para outras atividades. Uma alternativa, que algumas operadoras começaram a simular, é a redução da quantidade de viagens, principalmente no fim de semana. O que aconteceria? O trabalhador, na sua folga, vai ficar na fila de ônibus esperando. Outra opção é aumentar a capacidade dos ônibus, com o biarticulado, mas é uma solução de longo prazo.
Proposta da CNT
Defendemos que a evolução venha por negociação coletiva, é isso que tem dado certo no Brasil. A Constituição fala de jornada de até 44 horas semanais, a média no Brasil é 38 horas, isso mostra que setores que podem dar mais folgas já trabalham dessa forma. Mas eu não posso colocar isso como regra no transporte, que tem que ser 7×7.
Regra de transição
Se tiver que fazer, defendemos uma regra de transição mais lenta. É mais fácil para o empresário absorver o aumento do custo se for uma hora por ano do que se colocar duas em dois meses. Se tiver um ano para se adaptar, que haja alternativas que façam com que a população não sofra com a inflação.
MP do Frete
Houve mudanças na Câmara que são quase inaplicáveis, como o salário mínimo para motorista de longa distância. É matéria estranha à MP. Outro ponto que preocupa é em relação ao cadastro do motorista. Para reduzir roubo de carga, tivemos que investir muito em gerenciamento de risco, e essas empresas não autorizam carregar por diversos motivos, como inadimplência, pois o que está com dívida é mais propenso a ser aliciado. Colocaram que só pode ser recusado quem foi condenado com trânsito em julgado. Entendemos que pode abrir mais espaço para roubo de carga.
Risco de greve
É muito difícil ter uma reação da categoria. Só tem medo de greve quem não está no setor. Se por acaso houver alguns motins, se a polícia cumprir a obrigação de dar o direito de manifestação para quem quiser, mas deixar o direito de ir e vir, não tem possibilidade de greve.
Subvenção ao combustível
Com a volta dos ataques, tudo pode mudar. Talvez seja melhor aguardar. Pior do que ter diesel caro é não ter diesel. Estou vendo que o governo está fazendo um esforço muito grande para poder ter o menor impacto econômico na bomba, mas tem que ter responsabilidade fiscal também. Para melhorar a situação, tem que aumentar a capacidade de refino, para no futuro não sermos mais dependentes da importação.
Juros
O juro é alto no Brasil pois o governo gasta muito. Quando começarmos a gerar superávit de forma efetiva, os juros vão cair. O dano do juro alto pode ser pior do que o preço do óleo diesel. Para o setor, traz falta de investimento na renovação da frota. É preciso reduzir a Selic para reduzir o custo do financiamento.
Pleitos aos presidenciáveis
Pretendemos levar sugestões para incentivar o transporte coletivo e continuar a maior capacidade de investimentos na infraestrutura de transporte, nos preocupamos muito com a intermodalidade. Defender investimentos, mas com responsabilidade fiscal.
Eventos climáticos extremos
Temos investido onde tivemos problemas, mas é muito pouco. Temos empresários mais preocupados com a renovação da frota, estudando combustíveis alternativos.
El Niño
Sempre que tem uma forte chuva, corre o risco das estradas brasileiras terem algum desgaste que atrapalhe o transporte, que vamos ter que ver alternativas. Mas, o que mais preocupa hoje é o risco de interromper o transporte por falta de navegabilidade nos rios.
Crime organizado
No caso de roubo de carga, que era uma forma muito usada para legalizar dinheiro, buscamos investir em segurança preventiva. Mas, depois que acontece o fato, é caso de polícia. No roubo de carga a gente trabalha muito com gerenciamento de risco. No começo do ano, aprovamos uma lei que fala que, quando identificar mercadoria roubada, pode suspender o CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) da empresa e queremos que vire realidade. A ideia é mostrar que comprar carga roubada não é um bom negócio.
Fonte: Valor Econômico, 13/07/2026
