O Globo – Depois de administrar por mais de 27 anos os trens do Rio, a SuperVia deixou a concessão e uma fila de credores. Parte da dívida da antiga concessionária é com fornecedores que, sem o pagamento de maio, podem deixar de prestar serviços essenciais, o que põe em risco a operação do sistema. Entre os que levaram calote estão empresas responsáveis por fabricação de peças, restauração de vagões, sinalização, bilhetagem eletrônica e gestão de pessoal de apoio e segurança. Até profissionais que fazem a retirada de colmeias e casulos de marimbondos ao longo da via-férrea estão cobrando valores devidos.
O total dessa dívida não é conhecido. O maior passivo é de R$ 1,9 bilhão com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), fruto de financiamentos. Mas, para o dia a dia do passageiro, o débito com fornecedores — cerca de R$ 15 milhões, só referentes a maio — impacta diretamente a qualidade do transporte. É o caso das escadas rolantes paradas em algumas estações. Os equipamentos, muito importantes para idosos e pessoas com dificuldade de locomoção, estão sem funcionar no Méier e em Madureira. A do Maracanã parou há duas semanas por falta de peça de reposição.
Uma empresa de manutenção de vagões, por exemplo, apresentou uma nota fiscal de R$ 452 mil. Em outro serviço, referente à revitalização de motores de composições elétricas e a diesel, a cobrança, vencida em 6 de junho, é de R$ 35,7 mil.
Onde há fumaça
O GLOBO localizou um dos credores que estão à espera de pagamento. Trata-se de uma empresa de inspeções ambientais que realizou 78 testes de fumaça em locomotivas e máquinas de manutenção movidas a diesel. O serviço foi concluído em 30 de abril, e a nota fiscal, vencida em 26 de maio, tem o valor de R$ 10.530. Uma nova medição, para atender às exigências de uma lei ambiental, está programada para outubro. Anderson Pereira, diretor da empresa, afirmou, no entanto, que, sem o pagamento do trabalho anterior, dificilmente aceitará realizar novamente o trabalho:
— É complicado fazer um novo serviço sem receber a nota anterior. Tenho uma equipe de trabalho, e a falta de pagamento desorganiza a gente. Se não pagarem, fica complicado fazer de novo. Já tentei receber, mas até agora não consegui nada.
As cobranças vêm sendo feitas à SuperVia, que está em recuperação judicial. O novo contrato de concessão — assinado pelo governo do estado e a Nova Via Mobilidade (que usa a logomarca TrensRJ) e homologado no fim de fevereiro pela 6ª Vara de Fazenda Pública do Tribunal de Justiça do Rio — estabelece que a nova permissionária não é responsável pelo passivo da SuperVia.
Carta para o estado
Com esse respaldo, a TrensRJ enviou uma carta à Secretaria estadual de Transportes (Setrans), com cópias para a Procuradoria-Geral do Estado e a SuperVia, comunicando a existência dessas dívidas. O documento pede que sejam adotadas providências para regularizar a situação e alerta que esse cenário pode provocar interrupções em serviços prestados por terceirizados, com reflexos na regularidade e na qualidade do transporte de passageiros.
A SuperVia encerrou suas atividades no último dia 29 de maio. A nova concessão garantiu à TrensRJ a operação de 270 quilômetros de trilhos por 12 cidades e 104 estações. Segundo o acordado, a remuneração da empresa, a ser paga pelo estado, será de R$ 17,60 por quilômetro percorrido pelas composições. O contrato tem validade de cinco anos, podendo ser renovado por igual período. Em média, cerca de 300 mil pessoas utilizam diariamente os trens na Região Metropolitana.
Ainda de acordo com o contrato, ao fim de cada mês, será feito um cálculo considerando o percurso realizado pelas composições, descontando-se os valores arrecadados nas bilheterias e eventuais penalidades impostas pelo descumprimento de indicadores. A diferença entre os valores é estimada em cerca de R$ 22 milhões mensais.
Garantia em conta
Uma cláusula, no entanto, prevê uma espécie de garantia contra a inadimplência. Caso o governo deixe de pagar os valores devidos e reconhecidos, eles poderão ser descontados de um montante já depositado pelo estado em uma conta que reúne recursos equivalentes a seis meses de prestação de serviços. Os saques, porém, poderão ser de apenas uma parcela por mês. Ao todo, o contrato prevê o gasto de R$ 652 milhões em custeio ao longo de cinco anos, podendo ser renovado por igual período.
Violência preocupa
Procurada, a TrensRJ confirmou ter enviado o comunicado sobre as dívidas ao governo estadual e informou que vem adotando as medidas necessárias para mitigar possíveis impactos aos passageiros, buscando alternativas junto aos fornecedores e ao mercado.
O GLOBO entrou em contato com os escritórios que cuidam das ações da SuperVia, mas não conseguiu localizar representantes da concessionária. Já a Secretaria estadual de Transportes informou que a Procuradoria-Geral do Estado dará ciência à Justiça sobre as dívidas, já que a empresa está em recuperação judicial, ressaltando que a mudança da gestão não transfere para o estado a responsabilidade pelos contratos com os fornecedores. Acrescentou que “atua em conjunto com a TrensRJ para garantir que o serviço continue sendo prestado com qualidade aos passageiros”.
Mas as dívidas não são o único problema que atinge a malha ferroviária. De acordo com informação da própria permissionária, 14 estações sofrem influência direta do crime organizado, com a linha férrea passando às margens de 179 comunidades controladas por traficantes ou milicianos. A violência fez com que, apenas em março, 26 viagens fossem canceladas ou interrompidas. Outro problema apontado é a inadimplência: cerca de 30 mil pessoas embarcam diariamente nos trens sem pagar.
Por: Marcos Nunes
Fonte: O Globo, 23/07/2026
