Bondinho de Santa Teresa: aos 130 anos, modal vive conflito entre passeio turístico e transporte de bairro
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/P/K/pe9b7bRG2NriuNADj4MQ/116048825-ri-rio-de-janeiro-rj-28-08-2026-130-anos-do-bondinho-de-santa-teresa-.foto-de-gabr.jpg)
Lotação máxima e poucas vagas para moradores é um dos desafios para o transporte local. Para os turistas, a alegria do passeio pelo bairro bucólico
Em um 1º de setembro, mas há 130 anos, a tração animal deu lugar à energia elétrica. E assim o bondinho de Santa Teresa passou a circular do jeito que o vemos até hoje. O aniversariante do dia, transformado em símbolo do bairro e cartão-postal do Rio, teve papel ativo no desenvolvimento urbano e enfrentou períodos de abandono, mas resiste e atrai olhares por onde passa. Depois da reinauguração, em junho, dos 5,8 quilômetros entre as estações Dois Irmãos e Silvestre, está prevista para este mês a viagem experimental de um novo trecho que poderá conectar o sistema ao Trem do Corcovado e facilitar o caminho até o Cristo Redentor.
A integração do Silvestre com o Trem do Corcovado existiu até a década de 1960, mas foi fechada ao público após os estragos causados pelas grandes chuvas de 1966. A retomada desse percurso é mais um passo rumo à ampliação do modal que já dominou a cidade no passado, hoje representado pelo vaivém nos trilhos de Santa Teresa. Para a associação de moradores local, no entanto, o sistema vive um conflito entre o serviço turístico e a função de transporte dos habitantes do bairro.
— O bonde é um símbolo do bairro, mas também é o meio de transporte que mais se adéqua à geografia de Santa Teresa. Nossa preocupação é que ele continue sendo tratado apenas como um passeio para o turista. Não somos contra o turismo, mas precisamos de mais carros circulando, mais motorneiros, ampliação de horários e mecanismos que garantam o lugar do morador no bonde — afirma Orlando da Costa, presidente da Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa (Amast).
Tinha hora para passar
Antigamente, segundo Orlando, o bonde era parte da rotina e o meio de deslocamento mais eficaz da região. Havia identidade com o morador, marcada pelo bate-papo nas viagens e pela amizade entre motorneiros e moradores. Essa intimidade, no entanto, ficou para trás.
— As pessoas sabiam a hora exata que ia passar. Era infalível. Depois, a falta de investimento levou à degradação. Eram peças trocadas de um bonde para outro, virou um Frankenstein. Teve o acidente e o serviço parou por anos — conta.
O acidente ao qual ele se refere foi o de 27 de agosto de 2011, quando uma falha no sistema de freios fez o bonde, que seguia para a Lapa, bater em um poste na Rua Joaquim Murtinho e tombar. Seis pessoas morreram e 56 ficaram feridas — entre elas, turistas franceses, americanos e portugueses.
Moradora de Santa Teresa há mais de 30 anos, a assistente social Rosângela Celem não esconde a indignação com o histórico de abandono que testemunhou.
— O bonde para mim é a alma de Santa Teresa. Na época do acidente, o bairro virou de cabeça para baixo, foram anos de reformas e hoje o bonde deixou de ser opção de transporte dos moradores. A passagem custa R$ 20, a estação vive entupida com o fluxo de turistas. São poucas vagas para morador e é muito difícil conseguir. A gente não pode contar com ele — desabafa Rosângela.
Segundo a Central Logística, empresa do governo do estado responsável pelo bondinho, há atualmente oito veículos em circulação — o sistema já chegou a ter 35 bondes operando.
Há quase dez anos morando no Largo do Curvelo, o ator Giu Maué, de 46 anos, também anda frustrado.
— Era para ter mais bonde circulando e menos tempo de espera. Acabo tendo que pedir transporte por aplicativo, que também demora a aceitar. Fora o preço, que antigamente era bem mais em conta, praticamente simbólico — afirma ele.
Segundo a Secretaria de Transporte e Mobilidade Urbana (Setram), a venda de bilhetes do bonde de Santa Teresa gera arrecadação média de aproximadamente R$ 400 mil por mês — a passagem custa R$ 20 e moradores não pagam, mas só têm direito a seis assentos por veículo.
Após a reinauguração do ramal Silvestre — que consumiu 12 anos de obras —, a viagem de testes de conexão com o Trem do Corcovado, prevista para este mês, vai ajudar na avaliação de aspectos operacionais, além da demanda. Sávio Neves, presidente do Trem do Corcovado, espera que a operação seja inaugurada ainda este ano.
— Vamos começar um período experimental, uma vez por semana, na parte da tarde, e depois a gente vai estendendo para outros horários e outros dias. Acho que vai ser bom para todo mundo. Para o passageiro, para Santa Teresa, porque oxigena os restaurantes e hotéis, traz uma nova dinâmica, e também resgata essa integração que funcionou por tanto tempo — afirma o empresário.
Nasce um bairro
A história do bondinho se confunde com a do bairro por onde ainda circula. A região começou a ser ocupada no século XVIII, mas teve seu desenvolvimento impulsionado com a chegada dos veículos, ainda puxados por animais, em 1872, introduzidos pela Companhia Ferro-Carril de Santa Teresa. Com o acesso facilitado, o bairro, antes composto por amplas chácaras, passou a ser loteado em propriedades menores.
— Santa Teresa não seria o que é sem o seu bondinho, é uma espécie de alma amarela do bairro mais pitoresco do Rio — conta Carlos Fernandes, criador de conteúdo digital sobre a cidade e guia de turismo, sob o pseudônimo Passeador Carioca.
Aos 69 anos, o assistente de manutenção dos bondinhos Carlos Guedes trabalha na função desde os 26.
— Uma vida — exclama. — É apaixonante. Eu amo isso aqui, desde o primeiro dia que vim para cá. A mecânica dos bondes mudou muito. Hoje é mais limpa, mais leve. O bonde é mais seguro. Antigamente a rotina era muito pesada — relembra Guedes.
Depois do grave acidente de 2011, o estado fez licitação para reforma de 14 bondes históricos. Até hoje, cinco deles continuam abandonados na Estação Barão de Mauá (Leopoldina). Em nota, a Setram afirmou que os veículos estão em processo de remoção: “O procedimento entrou em fase operacional e prevê o transporte dos veículos em carretas especiais até o Complexo Ferroviário de Deodoro, onde ficarão em área coberta”, diz o texto.
Memória, folia e tragédia ao longo da viagem
Nos tempos de outrora
Os primeiros bondes, que surgiram em 1872, eram movidos por tração animal, ou seja, puxados por burrinhos. Só 24 anos depois, em 1896, surgiu o bonde elétrico. Em 1º de setembro, foi inaugurada a linha eletrificada que, até os dias de hoje, liga Santa Teresa ao Centro, passando pelo antigo Aqueduto da Carioca, o atual monumento dos Arcos da Lapa.
Muitos carnavais
A foto é do carnaval de 2010. O bloco Céu na Terra desfilava pelas ruas estreitas de Santa Teresa. Claro que o tradicional veículo não ficou de fora. Tornou-se, como em muitos carnavais, parte da folia no bairro. Atrás do bonde elétrico também foram os foliões do Carmelitas e do Badalo, em cortejos para multidões.
Acidente trágico
Em 27 de agosto de 2011, um bonde descarrilou e tombou em Santa Teresa. Seis pessoas morreram e 56 ficaram feridas. Investigações apontaram falhas no sistema de freios. Um dos mortos foi o motorneiro Nelson Correa da Silva, cujo nome passou a batizar a estação do bondinho no Largo da Carioca.
Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/09/01/bondinho-de-santa-teresa-aos-130-anos-modal-vive-conflito-entre-passeio-turistico-e-transporte-de-bairro.ghtml, 01/09/2026
Fotos: Gabriel de Paiva/Agência O Globo
