Admiradores de trens, pesquisadores e municípios recuperam a história da antiga RFFSA e dão novo destino a estações
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Maria fumaça na recém-restaurada estação do Rio Bonito, que hoje sedia museu
Com 600 bens de valor histórico inscritos na Lista de Patrimônio Cultural Ferroviário do Iphan, a malha da extinta Rede Ferroviária Federal (RFFSA) tem levado a iniciativas de recuperação da história e da preservação dos ramais. De coleções de fotos disponibilizadas para consultas nas redes sociais à restauração de estações centenárias, municípios, pesquisadores e admiradores de locomotivas se uniram para não deixar o patrimônio descarrilar.
Um dos defensores do legado ferroviário é o pesquisador Mauricio Lima Corrêa. Há 28 anos se dedicando ao levantamento da história de Juiz de Fora, em Minas Gerais, ele reuniu cerca de 450 fotografias ligadas a ferrovias. São imagens de estações, locomotivas e passagens de nível que retratam a rotina de passageiros e paradas de trem nos séculos XIX e XX na Zona da Mata mineira. É possível consultar fotos de “marias-fumaça”, famílias nas plataformas, enchentes que paravam os ramais e acidentes envolvendo trens.
O material, disponível no blog “Resgatando o passado: A história de Juiz de Fora”, faz parte de um acervo extenso. É possível encontrar nas seções “Trens e Ferrovias” e “Estações” reproduções de documentos, canhotos de passagens e textos de historiadores. O material para pesquisa é compartilhado nas redes sociais do pesquisador. Filho de um ferroviário, Maurício, de 65 anos, destaca o número de acessos ao acervo virtual.
— Já são 16 milhões de visualizações no blog. Esse número não inclui as redes sociais. Comecei a fotografar Juiz de Fora e região em 1974. Bem depois, aos poucos, fui digitalizando. Construí uma rede de colaboradores, que hoje enviam imagens, relatos e curiosidades sobre a rede. A ideia surgiu ainda na época do Orkut e hoje está no blog, no Facebook e no Instagram — conta Maurício, que pelo menos uma vez por semana percorre de bicicleta um trecho de 63 quilômetros da antiga rede ferroviária entre Juiz de Fora e Lima Duarte.
Da água aos passageiros
Batizada de Ferrovia das Águas, a Estrada de Ferro Rio D’Ouro, construída em 1876 para ligar a região de Tinguá, na Baixada Fluminense, à capital do estado e servir de apoio à construção de adutoras de água para abastecer a Corte, preserva ainda estações centenárias. Um projeto da prefeitura de Nova Iguaçu, que assumiu prédios do ramal, restaurou a Estação de Tinguá e entregará, em dois meses, mais uma parada de trem recuperada, a de Rio D’Ouro.
Sem tráfego de trens, Tinguá abriga hoje o projeto Estação da Cultura, onde ocorrem eventos e exposições sobre a história de Nova Iguaçu. A mesma iniciativa será levada para Rio D’Ouro. A estação local, em obras, teve as características originais recuperadas após um levantamento documental e fotográfico.
— A Ferrovia das Águas é rica em história e importância. À época em que foi construída, serviu de apoio para a implantação de um sistema de adutoras que levam até hoje a água de Tinguá para a capital. O Rio de Janeiro enfrentava na época uma crise hídrica, não havia água para todos os moradores. A cidade crescia muito, desde a chegada da família real portuguesa, em 1808, e o abastecimento não acompanhava — conta o secretário de Cultura de Nova Iguaçu, Marcus Monteiro, ex-presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac).
Segundo Monteiro, após a conclusão das obras em Rio D’Ouro, o município partirá para a recuperação da Estação de Vila de Cava, a maior do trecho. Ele aponta que o grande desafio de restaurar e manter uma estação passa pela utilização do prédio:
— É preciso ter uma função para o imóvel, usar o bem, dar vida a ele. Se permanecer fechado, enfrentará novo processo de degradação.
Após servir ao transporte de material para adutoras, o ramal de Rio D’Ouro passou a ser usado para o transporte de passageiros até 1964.
Além de Nova Iguaçu, outras cidades fluminense abrigam iniciativas ligadas à malha ferroviária centenária. Em Rio Bonito, na Região Metropolitana, a prefeitura restaurou a antiga estação da cidade, de 1880. As obras foram entregues no início deste mês. O local passou a sediar o Museu da Ancestralidade, que reúne material sobre a cidade, escravizados e primeiros moradores, e um centro cultural.
No Sul Fluminense, foi reativado um trecho do ramal que corta a cidade de Miguel Pereira, onde circula um trem turístico com uma maria-fumaça. Já na capital, segue o projeto de restauração da antiga Estação Leopoldina, no Centro. As obras começaram há dois anos, mas ainda não têm prazo para a conclusão. A estação vai completar 100 anos no dia 6 de novembro.
Música e arte urbana
Cidade do interior de São Paulo distante 384 quilômetros da capital, Santa Rita de Viterbo também recuperou a antiga estação ferroviária, de 1910, dando como destino para o local a música. Funcionam no imóvel a sede da Banda Filarmônica e a Escola Livre de Música Plácido Bertocco, mantidas pelo município.
Já Campo Grande criou a Esplanada Ferroviária, no Centro da capital de Mato Grosso do Sul. O complexo reúne uma estação de trem, construída nos anos 1920, o Museu de Arte Urbana – Casa Amarela, um galpão cultural e uma biblioteca, que será inaugurada nesta semana. O museu mantém o projeto “Locomotiva de Histórias”, com eventos sobre a trajetória dos ferroviários, suas famílias e usuários da antiga Ferrovia Noroeste. Da estação partiam trens para Corumbá (MS), Ponta Porã (MS), São Paulo e Bolívia.
O patrimônio da RFFSA é formado por bens imóveis e móveis, incluindo estações, armazéns e rotundas, além de locomotivas, vagões, carros de passageiros e maquinários. Entre os objetos centenários, há mobiliários, relógios, sinos, telégrafos e documentos.
De acordo com o inventário da RFFSA, são cerca de 52 mil bens imóveis e 15 mil móveis, classificados como de valor histórico pelo Programa de Preservação do Patrimônio Histórico Ferroviário (Preserfe), do Ministério dos Transportes. O material histórico está sob a proteção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Foto: Divulgação/Prefeitura de Rio Bonito
