Uma década de VLT

Uma década de VLT: Transporte mudou a paisagem, enfrentou o Centro esvaziado e projeta recuperação

Inaugurado com apenas uma linha numa manhã chuvosa de domingo entre a Praça Mauá e o Aeroporto Santos Dumont, o veículo leve sobre trilhos (VLT) carioca, que completou dez anos de operação na sexta-feira, mudou a paisagem do Centro do Rio. Um trecho da Avenida Rio Branco, por exemplo, passou a ser dedicado apenas a pedestres e ao VLT, mudando tradições da cidade, como os desfiles do Bola Preta, que se mudaram para a Avenida Presidente Antônio Carlos. Na Praça Quinze, fez parte da nova paisagem, já pós-implosão da Perimetral. Mas o transporte moderno, menos poluente que os ônibus, enfrentou desafios como atrasos no projeto. A crise econômica e a pandemia de Covid-19 também ajudaram a esvaziar o Centro e contribuíram para que a meta inicial do número de passageiros previstos no contrato original não tenha sido alcançada até hoje.

— Isso tudo? Não tinha noção de que já estou usando há dez anos — surpreende-se o advogado Janilton Lima, usuário assíduo do VLT.

Estudos de viabilidade previam que, quando a última linha entrasse em operação — o que só aconteceu em abril de 2024 —, o sistema receberia 243.777 passageiros nos dias úteis, conforme documentos disponíveis no site da Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos (CCPar). Atualmente, 95 mil pessoas usam o modal diariamente.

— Esse é um valor contratual de referência que faz parte da modelagem, mas esse número foi feito em outro contexto da cidade e do Brasil. A pandemia afetou o resultado dos modais de transporte público da cidade. Mas a gente, nos últimos anos, vem se recuperando — explica Silvia Bressan, diretora de unidade do VLT Carioca, hoje com quatro linhas e 32 trens em operação. — O Terminal Gentileza foi um fator importante para essa recuperação.

Crescimento à vista

Inaugurado em 2024, o terminal intermodal conta com 78 mil passageiros diariamente e atualmente é atendido por 16 linhas de ônibus e sete do BRT, além do VLT, que concentra 11,4 mil desses usuários.

Além do Terminal Gentileza, as paradas com maior movimento são Cristiano Ottoni (ao lado da Central do Brasil) e Candelária. Há também casos de demanda mudando com o tempo, como na estação Pereira Reis, no Santo Cristo, que apresentou aumento de passageiros após os lançamentos imobiliários na região.

— A cidade é viva. É só olhar pela janela e vemos uma série de prédios que já foram inaugurados e outros ainda em construção. O Rio tem outros projetos, o Reviver Centro, a Rua da Cerveja, o polo tecnológico Maravalley. A prefeitura anunciou recentemente o Praça Onze Maravilha. Entendemos que fazemos parte da cidade, e a perspectiva é de crescimento — completa a diretora do VLT Carioca.

Usuários mais antigos se recordam de quando o VLT precisava até de um batedor à sua frente para abrir caminho, numa cidade em que ainda era um elemento estranho. Uma década depois, sem essa ajudinha, a atenção dos condutores — que fazem o teste do bafômetro todos os dias antes de começar o expediente — precisa ser redobrada.

Tempo de viagem e calote

O motivo é que cada vez mais pessoas distraídas cruzam os trilhos do VLT mexendo no celular. Em alguns casos, o sino característico do modal é inútil: fones de ouvido que abafam ruídos externos fazem tudo ser ignorado. A multiplicação de entregadores de moto e bicicleta sobre os trilhos e até turistas em patinetes elétricos faz a concessionária admitir que, para além da preocupação com a segurança, isso impacta o tempo das viagens, aumentado pela necessidade de reduzir a velocidade em pontos movimentados.

Sem catracas, o modal tinha uma preocupação em seu princípio: o calote. Silvia Bressan avalia que os índices de evasão no sistema são “comparáveis a outras operações no mundo”.

— Dez anos depois, digo que é um projeto que funciona bem — afirma.

A auxiliar de serviços gerais Michely Santiago, usuária do sistema, avalia que os fiscais de pagamento “afrouxaram” ao longo do tempo.

— Entrou um monte de engravatado que não pagou hoje, e os fiscais não viram. Quando é gente mais pobre, eles vêm logo na nossa direção — relata.

A concessionária explica que a fiscalização ocorre de “forma contínua” e de “maneira uniforme”. A multa é de R$ 170 para quem não pagar a passagem. Com a implantação do Pix nos validadores, no último dia 30, os fiscais cobrarão a identidade e o comprovante de pagamento de quem usar essa modalidade.

O perfil dos usuários do modal é majoritariamente de trabalhadores. Um deles é o servidor público José Carlos Pereira, que deixou de usar o ônibus para circular no Centro, por encontrar facilidade no VLT. Mas ele pede atenção à manutenção dos trens:

— Algumas composições estão com os letreiros apagados. Aí, temos que ir à janela perguntar que linha é.

Segundo a concessionária, todos os trens iniciam o dia com os “sistemas em pleno funcionamento”, mas são encaminhados à manutenção ao fim da operação caso “situações pontuais” surjam.

Ampliação da malha

Em fevereiro de 2017, o então prefeito Marcelo Crivella inaugurou a linha 2 do VLT. No entanto, o contrato de concessão previa aportes do município para a execução do projeto: os pagamentos pela antecipação dos recursos para as obras feitas, por meio de uma parceria público-privada, foram suspensos em meio a uma crise financeira da prefeitura. Em 2019, a concessionária chegou a ameaçar entregar a operação, quando a dívida já estava em R$ 150 milhões.

A obra do VLT custou R$ 1,157 bilhão, sendo R$ 532 milhões em recursos federais do PAC Mobilidade e R$ 625 milhões antecipados pela PPP. O sistema tem 28 quilômetros e opera das 5h às 23h.

Desde o contrato original, já foram feitos sete aditivos, que repactuaram o contrato. O primeiro deles, ainda em abril de 2016, retirou do escopo das metas da primeira linha um trecho de 2,6 quilômetros até a estação Praia Formosa, fazendo conexão com a Rodoviária Novo Rio, gerando perda de receitas de R$ 11 milhões até 2022, segundo o sexto aditivo.

A criação de novas linhas ainda não vingou. No ano passado, o município foi autorizado pela Câmara a criar uma PPP para expandir o VLT até São Cristóvão. Foram feitos ainda estudos pela CCPar para “VLTizar” corredores do BRT. A prefeitura avalia ainda a adoção do Veículo Leve sobre Pneus (VLP) para a cidade.

Fonte: O Globo, 07/06/2026

 

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