Debate sobre o futuro da Nova Leopoldina e de São Cristóvão

Rio em Tempo Real debate futuro da Nova Leopoldina e de São Cristóvão em evento na Câmara do Rio

Câmara Rio – Especialistas, vereadores e representantes da sociedade civil discutiram, nesta terça-feira (23/06), os rumos da revitalização de duas áreas estratégicas para o desenvolvimento da região central da cidade durante o evento “Rio em Tempo Real: O Centro Expandido”, realizado no Salão Nobre da Câmara do Rio.

Promovido pelo portal Tempo Real, com apoio do Legislativo municipal, o encontro abordou os desafios e as oportunidades relacionados à transformação da antiga região da Leopoldina e às perspectivas para São Cristóvão. Sob mediação da jornalista Berenice Seara, a programação foi dividida em dois painéis.

O primeiro, intitulado “Nova Leopoldina: o renascimento de um patrimônio carioca”, reuniu a vereadora Tatiana Roque (PSB), o superintendente executivo de Habitação da Caixa Econômica Federal, Claudio Martins, e o diretor de Operações da Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos (CCPAR), Pablo Koehler.

Também professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana Roque abriu as discussões destacando a vocação científica histórica de São Cristóvão, que concentra parte significativa da memória e do patrimônio cultural da cidade.

“São Cristóvão abriga algumas das instituições mais importantes do Rio e do Brasil, como o Museu Nacional e o Observatório Nacional, que possui instrumentos de observação astronômica do século 19. É uma região com potencial para sediar um distrito de inovação, e esse é um sonho possível. Temos exemplos, dentro e fora do país, de que é viável conciliar instituições históricas, moradia e hub de inovação, como o Porto Maravalley, que representa um bom ponto de partida”, afirmou.

A parlamentar lembrou que, segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, as startups instaladas no Porto captaram mais de R$ 150 milhões em apenas um ano. Em 2024, as 29 empresas sediadas no local registraram faturamento próximo de R$ 1 bilhão. Tatiana também ressaltou a criação do IMPA Tech, graduação em Matemática da Tecnologia e Inovação financiada pelo Governo Federal.

“Temos empresas de sucesso gerando riqueza em uma área que antes estava degradada. A participação das companhias de Tecnologia da Informação, que representava 2% do total da cidade naquela região, hoje chega a 10%. Isso mostra a importância de uma governança baseada na tríade formada por setor produtivo, universidades e poder público para reter talentos e promover desenvolvimento. O próprio setor de petróleo brasileiro nasceu dessa articulação”, completou.

“Fundo Leopoldina”: possibilidade para viabilizar projetos

Claudio Martins, por sua vez, ressaltou a necessidade de integrar a região ao restante da cidade e afirmou que a Caixa pode atuar como parceira para garantir a viabilidade econômica dos projetos, inclusive por meio da criação de soluções financeiras específicas, como um possível “Fundo Leopoldina”.

“Um trem-bala na Leopoldina, especialmente conectando Rio e São Paulo, geraria uma dinâmica extraordinária para a região. Na área da habitação, temos toda uma estrutura pronta e faz muito sentido implantar ali o programa Minha Casa, Minha Vida. Mas é importante não restringir a ocupação a uma única faixa de renda. Precisamos de famílias com diferentes perfis para aproximar empregados e empregadores. Essa diversidade evita o estigma de um bairro pobre, um subúrbio expandido, e contribui para um crescimento orgânico, com o surgimento de comércio, escolas, hospitais e outros serviços”, afirmou.

Em sua participação, Pablo Koehler destacou os ganhos ambientais e estruturais proporcionados pelo Porto Maravilha, sobretudo com a reconfiguração do sistema viário e de saneamento, experiência que, segundo ele, pode servir de referência para a área da Leopoldina.

“Do ponto de vista da mobilidade urbana, o terreno do Gasômetro pode se tornar uma solução para evitar o funil de ônibus na Zona Portuária, funcionando como ponto de integração. O Terminal Gentileza já está pronto para alimentar São Cristóvão e outras regiões da cidade. A Avenida Francisco Bicalho é uma grande artéria urbana que foi esquecida, mas tem enorme potencial”, observou.

Koehler também revelou que mantém diálogo com a concessionária Águas do Rio para avaliar a construção de uma pequena estação de tratamento destinada à despoluição de um canal existente na região.

“Manter a cidade funcionando enquanto são realizadas intervenções nas redes de esgoto, energia, gás, iluminação pública e telecomunicações, atravessando diferentes governos, é um dos grandes desafios e reforça a importância das PPPs”, afirmou.

Bairro imperial

O segundo painel, “São Cristóvão: o futuro do bairro imperial”, concentrou as discussões sobre a revitalização da região, os desafios de infraestrutura, a preservação do patrimônio histórico e as perspectivas de desenvolvimento econômico e cultural.

O vereador Pedro Duarte (PSD) destacou a necessidade de ampliar as opções de deslocamento de moradores e visitantes como forma de impulsionar a economia local e fortalecer o bairro.

“O Bairro Imperial, apesar da proximidade com o Centro, passou por um processo de esvaziamento ao longo dos anos. Desde 2021, a Câmara vem debatendo formas de revitalizar a grande região central. A chegada do VLT a São Cristóvão é fundamental e já integra o plano de mobilidade do Governo Federal, falta apenas a definição do traçado. É um bairro tradicional, com muitos moradores, mas que enfrenta desafios ligados à segurança pública. Há muitas pessoas ansiosas por esse processo de revitalização”, afirmou o parlamentar.

O vereador Salvino Oliveira concordou e destacou o sentimento de insegurança como uma das principais preocupações de quem vive em São Cristóvão.

“O futuro da cidade não pode ignorar o seu passado. Historicamente, muitas pessoas foram invisibilizadas e, por isso, esse plano de desenvolvimento precisa incluir as favelas, a Barreira do Vasco e o Tuiuti. Precisamos pensar em como a requalificação beneficiará quem vive nessas áreas. Depois de anos da implantação do BRT, finalmente abriremos a estação São Cristóvão no próximo mês, e isso representa um começo. O bairro reúne todos os atrativos para conquistar a população mais jovem, mas ainda carrega uma imagem estigmatizada”, argumentou.

Segundo o parlamentar, a criação de um polo tecnológico voltado à qualificação da juventude pode contribuir para melhorar a ocupação do território. A proximidade com o Centro e a maior distância de áreas marcadas por conflitos entre facções criminosas também seriam fatores capazes de atrair novos moradores e rejuvenescer a região.

Faixa de preço mais acessível para primeiro imóvel

Sócio-diretor da TGB Gestão Imobiliária, Beny Chor informou que a empresa entregará em breve 86 estúdios, unidades residenciais com menos de 40 metros quadrados, e explicou os motivos que levaram o grupo a apostar em São Cristóvão.

“Sob a ótica do investidor, buscamos regiões que já possuam infraestrutura consolidada. Com a expansão do Porto Maravilha, entendemos que a demanda por moradia naquela área foi validada. O metro quadrado em torno de R$ 10 mil é uma faixa acessível para quem deseja adquirir o primeiro imóvel. Para quem ainda não pode comprar, trabalhamos com a perspectiva de aluguel de até R$ 2 mil, já com condomínio incluído”, afirmou.

Encerrando os debates, o historiador, professor e pesquisador Rafael Mattoso ressaltou que o passado do bairro oferece pistas importantes sobre os caminhos para o futuro.

“São Cristóvão abriga um dos maiores sítios arqueológicos do Rio. Antes mesmo de se tornar um bairro imperial, possui um passado tupinambá, uma memória afro diaspórica e uma forte vocação operária. É daí que surge o processo de formação das favelas. O Caminho Imperial, que liga o Largo da Cancela a Santa Cruz, preserva poucos elementos identificáveis atualmente. São Cristóvão carrega muita história e por isso qualquer projeto de modernização precisa ser amplamente debatido com a sociedade”, defendeu.

 

Fonte: Câmara Rio, 23/06/2026

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