TrensRJ estima prejuízo de R$ 1 milhão após descarrilamento provocado por acesso indevido
Uma colisão entre um trem da concessionária TrensRJ e uma camionete, ocorrida na tarde da última quarta-feira, 9 de setembro, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, provocou o descarrilamento da composição, interrompeu parcialmente a circulação ferroviária de passageiros e resultou em um prejuízo estimado em R$ 1 milhão para a empresa.
Segundo a concessionária, o valor consta de uma análise preliminar e considera aproximadamente R$ 500 mil pela indisponibilidade do material rodante danificado, além de outros R$ 500 mil relacionados ao atendimento da ocorrência e à recuperação da via permanente. A empresa afirma que o incidente decorreu de uma situação alheia à sua operação.
O acidente ocorreu por volta das 15h20, quando a camionete acessou irregularmente a faixa ferroviária e colidiu com o trem, provocando o descarrilamento e a suspensão temporária da circulação em parte do Ramal Saracuruna. As estações Jardim Primavera e Campos Elíseos precisaram ser fechadas durante a ocorrência. O motorista do veículo foi encaminhado a um hospital em razão dos ferimentos.
Até o momento, a concessionária não tem informações concretas sobre as circunstâncias exatas que permitiram o acesso indevido à via. A TrensRJ, entretanto, informa que existe, na região, um trecho de muro cujo fechamento está sendo conduzido pelo Governo do Estado.
Tecnologia como aliada da segurança
Embora a implantação de barreiras físicas seja uma das alternativas para impedir acessos irregulares, soluções tecnológicas também podem contribuir para a redução de riscos. Entre elas está a passagem em nível equipada com sistema de detecção por Doppler, recurso que pode ampliar a segurança em cruzamentos entre ferrovias e vias rodoviárias.
A tecnologia utiliza sistemas inteligentes de sinalização para identificar a aproximação de composições e antecipar o acionamento de avisos e o fechamento das passagens em nível. A adoção de equipamentos desse tipo, segundo especialistas, merece maior atenção por parte dos órgãos responsáveis pela gestão da infraestrutura ferroviária no país.
Na avaliação de Alessander Bosloper, mestre em Engenharia de Manufatura, os desafios não se limitam à tecnologia. Para ele, fatores culturais e comportamentais também influenciam diretamente a ocorrência de acidentes, seja envolvendo motoristas, seja envolvendo pedestres.
“O que faz hoje o povo atravessar a PN? Ela está ligada, em modo de alerta, ou seja, está piscando e o trem não vem. O que a pessoa faz? Ela atravessa. Por isso que há um número de acidentes”, afirma.
O especialista observa que a pressa e o desrespeito à sinalização estão entre os principais fatores associados aos sinistros registrados nesses cruzamentos.
Experiência de Curitiba
Entre as alternativas para modificar esse comportamento, Alessander cita uma experiência realizada em Curitiba, onde a instalação de semáforos convencionais de trânsito em passagens em nível contribuiu para uma redução superior a 90% nos acidentes nos pontos contemplados pelo projeto. A iniciativa, desenvolvida em parceria com a Rumo, operadora ferroviária de carga, utilizou um modelo de sinalização mais familiar à população.
“Um sinaleiro normal de carro [é uma opção], porque as pessoas hoje estão acostumadas. Você está olhando o sinaleiro, ele vai ficar vermelho e, intuitivamente, você já sabe que tem que parar. E, a partir da colocação do sinaleiro, a comunidade local passa a abraçar aquele equipamento [entender as regras e os sinais]. E isso aqui funciona”, explica.
A realidade da malha fluminense
O episódio também chama atenção para a dimensão do desafio na malha ferroviária de passageiros do Rio de Janeiro. Com aproximadamente 270 quilômetros de extensão, o sistema possui ao menos 37 passagens em nível regulares e sinalizadas.
Paralelamente, um levantamento realizado pela então SuperVia, em 2023, apontou a existência de mais de uma centena de travessias ilegais ao longo da malha. O cenário exige ações coordenadas entre os governos estadual e municipais, especialmente para impedir a abertura recorrente de acessos clandestinos por moradores e usuários que vivem no entorno da ferrovia.
A combinação entre fiscalização, implantação de barreiras físicas, conscientização da população e adoção de tecnologias de detecção e sinalização pode ser determinante para reduzir a ocorrência de acidentes e preservar a segurança de passageiros, pedestres e motoristas.
Fonte: Revista Ferroviária, 14/09/2026
Foto: Reprodução de um vídeo nas redes sociais, que mostra momentos após o acidente de Duque de Caxias
