Investir em transporte tem maior impacto, diz estudo
Os investimentos em transporte geram o maior impacto combinado entre crescimento da produção e geração de empregos no Brasil, segundo estudo do FGV Ibre que compara diferentes segmentos da infraestrutura.
O setor de transportes tem o maior multiplicador de produção e o segundo maior na geração de empregos, atrás só da construção civil. A cada R$ 1 milhão investido, a produção gerada pode chegar a R$ 3,34 milhões e criar 31,77 empregos, somando efeitos diretos, indiretos e induzidos, sendo que este último considera a renda gerada pelos efeitos diretos no próprio setor e indiretos ao longo da cadeia de fornecedores.
“O transporte apresenta uma melhor combinação entre expansão da produção e geração de emprego, porque tem forte capacidade de encadeamento na economia. Ele conecta mercados, reduz custos logísticos e ativa múltiplos setores ao mesmo tempo”, diz Túlio Barbosa, um dos autores do estudo e superintendente de Infraestrutura e Mercados Globais.
Apesar do bom desempenho, a análise ressalta que a definição dos investimentos ainda depende dos objetivos da política econômica e da eficiência na alocação dos recursos. Além disso, cada segmento cumpre uma função específica dentro da estratégia de desenvolvimento e nenhum deve ser negligenciado, defendem os pesquisadores.
O levantamento utiliza a matriz insumo-produto de 2015, do IBGE, para estimar os efeitos de investimentos com base em multiplicadores de produção e de emprego. Além de transportes e construção, foram analisados os setores, eletricidade e saneamento e informação e comunicação.
A construção civil, por sua vez, se destaca pela grande capacidade de absorção de mão de obra direta e apresenta desempenho ligeiramente menor ao de transportes em termos de produção. A cada R$ 1 milhão investido, a produção gerada pode chegar a R$ 3,04 milhões e criar 33,25 empregos.
Segundo o estudo, o setor da construção tem um perfil relativamente equilibrado entre os efeitos direto, indireto e induzido, o que indica capacidade de ativar fornecedores e ampliar a renda de forma simultânea.
“A construção civil é o setor que mais gera emprego, sobretudo no curto prazo. Tem um efeito muito direto e forte, sendo um instrumento importante em momentos de desaceleração econômica ou de necessidade de absorção rápida de trabalhadores. Se o objetivo é gerar emprego imediato, a construção é insubstituível”, afirma.
O setor de informação e comunicação ocupa posição intermediária em termos de impacto na produção, ativando menos a cadeia de fornecedores, mas ainda contribuindo para a modernização e o aumento da competitividade. A cada R$ 1 milhão investido no setor, a produção gerada pode chegar a R$ 2,99 milhões e criar 23,87 empregos.
Já energia e saneamento apresentam os menores multiplicadores totais, mas exercem um papel estruturante ao sustentar a base produtiva, garantir estabilidade operacional e melhorar o bem-estar. A cada R$ 1 milhão investido no setor, a produção gerada pode chegar a R$ 2,86 milhões e criar 17,26 empregos. Nesse caso, o impacto sobre a produção tende a se concentrar no próprio setor, com menor difusão ao longo da cadeia produtiva. Já os empregos são, em sua maioria, indiretos ou decorrentes dos efeitos induzidos.
“Setores com menor multiplicador não são menos importantes”
— Túlio Barbosa
Barbosa ainda destaca que cada segmento da infraestrutura gera impactos diferentes na economia e defende que uma política eficiente não deve concentrar recursos em apenas um setor, mas combinar investimentos em diferentes áreas.
“A infraestrutura é, na prática, uma política industrial. Energia e saneamento geram menos emprego direto e têm menor efeito multiplicador no curto prazo, mas são essenciais. Funcionam como base para garantir produtividade, estabilidade e funcionamento da economia. Sem investimento em saneamento, por exemplo, há impactos na qualidade da água e na própria indústria. Ou seja, setores com menor multiplicador não são menos importantes”, afirma.
Sobre o setor de transportes, o superintendente ainda avalia que há baixos investimentos e gargalos logísticos estruturais, em um país marcado pela predominância do modal rodoviário e pela baixa integração multimodal. Ele destaca também que as deficiências logísticas elevam os custos de produção e prejudicam a competitividade da indústria.
Para ele, é necessária a ampliação dos investimentos em ferrovias, portos e hidrovias, além de um planejamento logístico integrado e de modelos de concessão mais eficientes, com melhor alocação de riscos. Segundo Barbosa, muitos projetos ainda são concebidos de forma isolada, sem articulação em corredores logísticos ou coordenação entre Estados.
“O Brasil não diversifica seus modais não por falta de potencial, mas por falta de coordenação, previsibilidade e visão integrada de longo prazo”, destaca.
Para o economista Cláudio Frischtak, da Inter.B, 2026 deve ser parecido com os últimos anos e seguir uma tendência de ampliação gradual dos investimentos em infraestrutura, principalmente por meio do setor privado. A diferença pode ser uma maior expansão dos investimentos públicos por se tratar de um ano eleitoral.
Frischtak afirma que o ciclo eleitoral não costuma impactar negativamente os investimentos em infraestrutura, já que, em geral, são de médio a longo prazo e boa parte já foi contratada. Segundo ele, a tendência é de aceleração dos investimentos públicos, enquanto os privados não devem sofrer efeitos significativos.
“É um ano em que você não vai ver uma mudança muito dramática na tendência. Nós imaginamos que haverá uma expansão dos investimentos privados, principalmente por causa dos contratos já assinados e das obrigações já assumidas, e também dos investimentos públicos, apesar da nossa crise fiscal permanente, por conta do impulso e do incentivo político associados ao ano eleitoral”, diz o economista.
Fonte: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/04/23/investir-em-transporte-tem-maior-impacto-diz-estudo.ghtml, 23/04/2026
